Carta ao meu amigo de 20 e poucos anos.

 

Não sei muito bem o que eu diria hoje para um jovem de 24 anos, os dias parecem diferentes e entendo que já deve ter passado por tantas experiências, e que com certeza terá uma percepção muito diferente da minha, mas sei o que eu gostaria de dizer para a jovem Bia de 20 e poucos anos, pois, nessa época, a Bia era a jovem Flávia, e estava passando por um dos momentos mais difíceis de sua vida, vivendo em um relacionamento abusivo, descontente com seu corpo, sua carreira, com sua vida.

 

Ela não conseguia ver nenhuma outra saída, tinha desistido de lutar, de viver. A vergonha que sentia por ter se colocado naquela situação era maior que tudo, sem coragem de pedir ajuda, ela punia seu corpo para amenizar sua culpa, e dormia profundamente para fugir de sua realidade.

 

Ahhhh… se a Flávia soubesse que ela não tinha culpa de nada.

 

Ela não conseguia entender o poque tinha se deixado envolver, ela tinha crescido com um pai ausente, devido ele trabalhar em outra cidade, uma mãe que pela maior parte de sua infância estava sofrendo de depressão, e uma irmã, que no auge de sua adolescência, se via obrigada a cuidar de sua irmã mais nova. Flávia desde pequena entendeu que tinha que aprender a se defender, a ser independente, que tinha que se proteger. Quando ela se machucava, ela sabia que seria sua irmã que a levaria para o hospital, e ela não queria que isso acontecesse de novo. Seus pesadelos com aviões caindo, prédios desabando, inúmeras situações nas quais ela tinha que se proteger começaram cedo, e a perseguiram por muitos e muitos anos. Ela nunca entendeu o que estava acontecendo.

 

Até que alguém percebeu e a ofereceu proteção. Proteção do mundo, das pessoas, de tudo. Para alguém que não se sentia protegida, era difícil reconhecer os limites entre proteção e abuso. Em uma de suas sessões, sua terapeuta chegou a fazer uma analogia para que a fizesse entender que não existia o porque se sentir culpada. Usou de exemplo que quando uma criança é abusada por um padrasto, ela pode enxergar a situação como um carinho especial, uma amor diferente. A criança só começa a entender como abuso, quando começa a comparar com outras experiências, pessoas, ambientes. A Flávia não tinha como identificar um relacionamento abusivo, porque não sabia reconhecer um.

 

Ela se lembra do momento que estava morando em outra cidade, trabalhando em outra cidade, em uma carreira que não estava feliz, e com vergonha de pedir ajuda, chagava até a pular algumas refeições por não ter dinheiro para comer. A vergonha era maior. Ninguém fazia ideia.

 

A cidade foi dura com ela, o trabalho foi duro com ela, ela foi dura com ela.

 

Em uma reviravolta da vida ela acabou tendo que se despedir de sua mãe, sem aviso, sem preparo. Flávia nunca tinha tido um relacionamento bom com sua mãe, apenas nos últimos anos elas tinham parecido se entender, mas ela acabou ficando sem muitas respostas e sem rumo.

 

Nos primeiros instantes ela só queria se certificar que seu pai e sua irmã estavam bem. As noites eram complicadas, não dormia, tinha surtos de pânico, passava noites olhando seu pai dormir só para ter certeza que ele estava respirando. Ela não precisava enfrentar seus próprios fantasmas naquele momento, mas o tempo foi passando, e enquanto ela via sua irmã e seu pai na tentativa de continuar, ela foi se perdendo no tempo.

 

Ahhhh… se a Flávia soubesse que podia pedir ajuda.

 

Agora ela estava sem trabalhar, em casa, com medo de tudo e de todos, usava drogas e comida como fuga, e maltratava seu corpo como punição. As noites eram longas, e mesmo sabendo que aquele relacionamento não era saudável, ainda dividia o mesmo teto, pois, tinha vergonha de admitir o quanto tinha errado entrando nesse relacionamento. Quantas vezes ouviu que passaria o resto da vida sozinha, que seu pai iria morrer e ela não teria ninguém. Que Deus não a amaria porque ela queria se separar, e que ela nunca teria paz porque ela merecia sofrer.

 

Ahhhh... se a Flávia soubesse que não existia certo e errado.

Ela não podia sair com os amigos.

Ela não podia decidir ir tomar um sorvete.

Ela não podia deixar de atender o telefone ao primeiro toque.

Ela não podia nem escolher sua roupa.

Ela não podia ser ela.

 

A morte da sua mãe trouxe um efeito inesperado. Alguns dias depois que sua mãe faleceu era seu aniversário. Flávia e sua irmã decidiram recolher os itens de sua mãe, e naquele dia ela tiraria lições que mudariam sua vida para sempre.

 

Ao organizar as coisas de sua mãe, elas começaram a encontrar muitos itens que nunca tinham sido usados, jogos de toalhas e lençóis ainda com etiquetas, roupas novas escondidas, cremes e perfumes que elas eram proibidas de tocar.

 

Então essa foi a primeira lição que ela tiraria desse dia. Flávia questionou o objetivo daquilo tudo. Para que ter todas essas coisas e não aproveitar? Não usar? Na época, não entendia que o habito de comprar era provavelmente o jeito que sua mãe preenchia outros vazios, mas todas aquelas coisas que tinham tanto valor para sua mãe, agora eram nada.

 

Ahhhh… se a Flávia soubesse que ela estava dando valor as coisas erradas.

 

Flávia entendeu que não queria seguir o mesmo caminho, que ela deveria dar valor as experiências, aos momentos, que mesmo que tivesse nas mãos o batom vermelho favorito de sua mãe, não seria a mesma coisa que sentir o beijo dela.

 

Flávia nunca se sentiu conectada com a sua família. Quando ela nasceu, sua família teve que mudar de cidade, então ela cresceu um pouco mais afastada, diferente de sua irmã que pôde passar a infância em convívio com eles.

 

A pequena Flavinha não entendia porque os avós vinham para aniversários e formaturas da sua irmã, e não para os dela. Porque a sua irmã tinha essas incríveis histórias de quando ia em shows com o tio, ou viajava com a família, e ela não. O porque seus avos só tinham fotos da irmã no quarto deles e de mais ninguém. Ninguém explicou para ela, que a irmã cresceu com os avós, e ela simplesmente não.

Era difícil a Flávinha se sentir protegida, porque nunca conseguia ganhar um argumento com sua irmã. Ela nunca tinha vez, a irmã (por ser mais velha, não por maldade) é quem dava as cartas. Era na cor da parede do quarto, no horário de dormir, do amiguinho (ou namorado) que levariam na próxima visita à família.

Ninguém explicou para a Flavinha que os pais dela era melhores de grana quando a irmã dela nasceu, mas as coisas ficaram mais difíceis quando a ela veio ao mundo. Ela não entendia porque a sua irmã tinha todos aqueles brinquedos lindos e ela não, porque a irmã tinha os uniformes e roupas novas enquanto ela usava os antigos. Não entendia o porque que irmã dela trancava o quarto para que ela não pegasse suas coisas, quando ela sempre dividiu tudo o que tinha.

 

Ela cresceu sem entender porque todos queriam que ela fosse como a irmã

Queriam que ela se vestisse melhor, como a irmã

Queriam que ela fosse uma estudante melhor, como a irmã

Queriam que ela se comportasse melhor, como a irmã

Queriam que ela fosse mais apegada a família, como a irmã

A única coisa que ela entendia

Queriam que ela fosse exatamente como a irmã

 

Isso ela aprendeu bem cedo, e desde então ela decidiu que não o faria, na verdade, decidiu que faria exatamente o contrário.

 

Voltando ao dia da arrumação, Flávia achou uma carta que sua irmã tinha escrito para a mãe. Na carta a irmã pedia desculpas por uns erros cometidos e esclarecia alguns fatos que tinham acontecido recentemente. Nesse momento ela percebeu algo muito importante. Desde pequena ela ouvia para ser igual à irmã, mas naquele momento, ela estava muito feliz por ter decidido ser o contrário. Não por que sua irmã tinha cometidos alguns erros, porque todos nos cometemos, mas, porque ela não tinha que manter nenhuma dessas expectativas que a irmã passou a vida inteira cultivando. Ninguém esperava que ela fosse correta o tempo todo, não tinha que agir de certa forma porque era o esperado, não tinha que se apresentar de certa forma, não precisava ser sempre a melhor aluna, a melhor trabalhadora.

 

Flávia foi aprendendo a ser ela mesma (ou pelo menos o contrário da irmã), ela já tinha desistido de alcançar os padrões esperados pelos outros e entendia agora como deveria ter sido difícil para a sua irmã ter que sempre estar a altura dessas expectativas, e mais difícil ainda quando teve que mostrar que ela não era tão perfeita assim.

 

Ahhhh…. se a Flávia soubesse que ela o quão bom era ser ela mesma.

 

Naquele mesmo dia, enquanto terminavam de embalar os pertences da mãe, elas acharam um antigo diário com algumas anotações, alguns poemas e algumas poesias. Sentimentos escritos. Sonhos em forma de palavras.

 

Esse foi o grande momento para a jovem Flávia. Ao perceber todos os sonhos que sua mãe nunca realizou, mesmo os mais simples e fáceis, ela ficou aterrorizada que isso pudesse acontecer com ela.

Ahhhh…. se a Flávia soubesse o quanto ela era forte.

 

Levou tempo. Levou tempo para tratar os distúrbios alimentares, cirurgias, tratamentos para curar o corpo, ajuda para tratar a mente.Ela perdeu o peso que sua culpa tinha trazido, ela deixou a carreira que não trazia mais felicidade, ela chegou a viver um tempo com apenas uma mochila, usando roupas emprestadas e morando com sua irmã e sua família, que amorosamente a acolheu.

 

Ela ainda lembra emocionada quando um simples dia de domingo, quando acordou e abriu a janela, decidindo se dar um pastel de café da manhã. As pernas estavam tremendo de ter ido sozinha comprar o pastel, mas ela feliz, estava livre para decidir o que fazer, estava livre para aproveitar todas as experiências, estava livre para viver.

 

Acordar de madrugada para ir trabalhar sete dias por semana em outra cidade era a sua rotina, conheceu pessoas incríveis que a ajudaram a se tornar mais forte. Ela agora, tinha decidido realizar seus sonhos, os transformando em metas, e até mesmo os que eram mais simples como comer outro pastel.

As pessoas veem hoje apenas uma parte do que sou. Hoje tenho um marido maravilhoso que é a minha razão de viver, que trouxe consigo uma família que nunca nem sonhei que fosse possível ter. Hoje, vivencio o meu sonho de morar fora, fazendo o que gosto, conhecendo lugares e buscando as minhas conquistas. Meus sonhos.

 

Ao mesmo tempo, existe o outro lado que as pessoas não veem. Possuo cicatrizes, ainda faço tratamentos para a minha depressão e síndrome do pânico. Ainda sofro de stress pós traumático e distúrbio alimentares. Todo dia é uma conquista.

 

O que eu gostaria de dizer para a Flávia e para o meu querido amigo de 20 e poucos anos...

 

 

“Tente não se culpar pelas coisas que aconteceram com você, aceite a sua responsabilidade sobre as mesmas, mas tente transformá-las em algo positivo. A culpa é um sentimento tóxico que só te prejudicará.

 

Peça ajuda! Não ha nada de errado em pedir ajuda, em precisar de outra pessoa, de um conselho, de um amigo, de um acompanhamento, de um profissional. Ao pedir ajuda você já está dando um passo em outra direção. Não tenha vergonha nenhuma se essa ajuda for profissional, existem pessoas que possuem o dom de ajudar e de te entender, eles apenas resolveram fazer isso como profissão. Nada mais que isso.

 

Não se prenda aos que os outros acham certo e errado, definitivamente o que pode ser certo para você, pode ser errado para o outro. Tentando viver para manter as expectativas dos outros, você acaba não sendo honesta com você.

 

Você é quem decide o que tem valor na sua vida. Seja a sua família, a sua roupa, o seu cachorro, seu trabalho. Por mais simples que pareça, deixamos as outras pessoas decidirem o valor das coisas por nós. Se aquela roupa tem valor para você, não deixe que te digam ao contrário.

 

E o mais importante, saiba o quanto você é forte. Você ainda tem muito a aprender, mas uma coisa é certa, todos temos uma força incrível dentro de nós. Stay Strong.”

Bia. Flavia. Flavinha.

©2019 by Bia Camargo

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